Segunda-feira, 9 de Maio de 2011

Ultrapassagem

Querida filha,

 

Um dia vais, com certeza, achar a vida da tua mãe absurda e, nalguns aspectos, igual a tantas que vais conhecendo com o passar do tempo. Quando fores realmente uma mulher mais madura, auto-suficiente e que eu espero insubmissa à mentira, compreenderás muita coisa que ficará por dizer. Todos temos a nossa verdade.

 

 

Tudo continuará sempre em mudança. Não há paragens, só oportunidades boas ou más e decisões que muitas vezes nos ultrapassam porque não há tempo nem vislumbre de outras oportunidades, percebes? Sei que já se vão abrindo caminhos mas muito vagarosamente. Para ultrapassar preconceitos, mentiras convenientes, em suma, a hipocrisia de uma sociedade que se gosta de mostrar com a sua capa civilizada, temos de a escandalizar. Quando verdadeiramente evoluirmos neste país tacanho o tempo da tua mãe já passou.


Não sei se para ti serei considerada a mãe ausente, egoísta e sem amor real para te oferecer mas, um dia, irás compreender que só quis dar uns passos mais à frente do que era habitual para a minha época.


Se eu me calasse a tua vida iria ser vivida com certeza sem percalços de maior mas isso não seria bom para ti. Nunca irias saber o que deves saber, o meu tempo, os meus anseios, a minha vida enquanto jovem porque quando a minha velhice chegar todas as minhas atitudes deixarão de ter assim tanta importância. Aprendeste, mesmo sofrendo com o impacto de duras realidades e ainda com a minha ausência, mais qualquer coisa sobre os problemas duma época que eu vivi muito conturbada. As limitações a que nos obrigavam por sermos mulheres eram absurdas. Tudo se vai modificando de gerações para gerações e nós vamos ganhando terreno. O teu caminho está aberto, livre, mas não será fácil.

 

 

Agarro-me à esperança do teu discernimento e inteligência. O teu amanhã será diferente e eu creio que vais acreditar na tua mãe e serás condescendente perante a sua ousadia. A tua juventude, o teu tempo serão favoráveis à compreensão de todo um passado que para mim foi doloroso e de sobrevivência.


Os anos da minha ausência foram usados para me conhecer livre de influências que me fizessem acobardar e esquecer a vida. Assim conheci outros caminhos, fiz opções através de outras janelas que abri como e quando quis. Foi um período de vida em que me senti uma pessoa não utilizada. Espero que me compreendas porque já és uma mulherzinha com uma outra visão às realidades do teu tempo. Com a tua idade, eu sonhava demais, porque vivia em espaços muito limitados.

 

Quando me afastei para me encontrar tu vieste comigo, estavas no meu coração e sempre ali ficaste. Quis procurar-me e a vida profissional ajudou-me a uma mudança. Sei que podia ter escolhido, ficado perto de ti e da avó mas a minha ânsia de conhecer outra maneira de viver foi mais forte e a situação económica teve muito peso. Sabes querida, a mãe quis ultrapassar as grades invisíveis que sempre a impediram de ser livre. Passou os seus melhores anos envolvida por imposições. Mas não foi só isso, o que marcou a tua mãe foram as pressões de muitos anos, que sendo opostas, eram similares. Quis encontrar um clima neutro onde me pudesse ouvir e decidir o que a minha alma e o meu corpo queriam. Errei ou fiz bem? Remexi na minha amargura, idealizei ser outra, representei a vida até sentir-me mulher e por fim distinguir o que realmente vale a pena. Fiz bem ou asneira? Não sei...As alternativas não eram muitas e fugi dos lugares, das paredes, das vozes do passado. Não acarinhei todos os teus dias, não velei diariamente por ti mas tentei nesta ausência estar contigo o mais tempo possível.

 

 

Desculpa querida a omissão da verdade das tuas verdadeiras origens e a ausência de um pai que nunca mais procurei porque o meu orgulho assim o exigiu. Fiz mal ou bem de encaminhar a minha vida assim? Mais uma vez te digo que não sei. Hoje muita coisa deixou de ter significado e só tu, minha filha, ficarás para sempre como o meu amor imenso.


Não me sinto bem. Esta minha independência passou a não ter significado. Afinal nada de muito importante me aconteceu porque não era bem a importância de um presente que eu buscava mas sentir-me livre para perceber a diferença. Afundei-me nesta procura de mim própria e afinal agora vejo que neste amor que sinto por ti é que poderei encontrar a verdadeira felicidade.

 

 

Tu existes, nasceste de mim, eu quis-te mesmo sabendo que não iria ser fácil viver olhando um passado que me marcou profundamente e um presente interdito aos meus sonhos. Depois, bem depois quis varrer a minha casa que começava a estar demasiado suja e fechada como a outra que tinha deixado por circunstâncias muito similares. O meu percurso de criança a adulta foi deveras difícil e, por tudo isso, tinha de pensar e agir por mim para perceber a diferença. Como adulta não podia continuar a viver lamentando-me e encobrindo o segredo da tua paternidade.


Ao contar a minha verdade, tudo o que afinal me roía por dentro, constatei que afinal o que me mortificava não era segredo, que o meu sofrimento não tinha valido a pena. Não devo repetir tudo o que já há alguns anos sabes e em diversas versões. Não te deixes invadir por inseguranças e complexos de falta de identidade. Olha para a tua parte luminosa: a  juventude, beleza, instrução e esse coração bondoso que sei que possuis. Serás tudo o que quiseres. Que continues sempre consciente do valor da tua própria vida.

 

Em breve vou voltar. Não ando bem de saúde e vou regressar à minha verdadeira casa.

 

Desejo recomeçar, rever o teu lindo sorriso e, principalmente, abrirmos os nossos corações ao amor que ficará agora, com certeza, mais fortalecido.


Não me deixes muito tempo à espera e perdoa à tua mãe este desafio, esta busca que, por fim, sinto que terminou.


Agora vou descansar. Hoje escrevi para ti tudo o que sei de mim desejando um futuro contigo. Se te despojares de ressentimentos e me quiseres de volta todo o passado valeu a pena.

 

A mãe que te ama

                               Paula

publicado por criar e ousar às 20:57
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