Terça-feira, 10 de Maio de 2011

Coragem

 

 

        Conheci uma jovem que perdeu o seu filho num acidente de bicicleta. O que mais me impressionou, quando a vi pela primeira vez, foi a intensidade do seu olhar, o que tinha contido dentro dela. Foi esta a sua carta cheia de sensibilidade perante a Vida que sente e a rodeia:

 
         “...O que é que ainda me faz pulsar? O que é que eu ainda gosto da Vida e na Vida?
Adianto desde já que detesto optimismos exacerbados, pessimismos mórbidos e miudices diabólicas. Detesto também estas pseudo modernices dos psicólogos que insistem em fazer de qualquer gesto automático e o mais trivial possível uma complicação intricada, uma conspiração sem precedentes à naturalidade das reacções humanas. Por isso sem “ismos”, sem “logias”, sem pseudo explicações capazes de baralhar o mais escorreito dos mortais, vou desfiando o rosário das minhas predilecções, dos meus portos de abrigo em horas de tormenta, das mil e uma insignificâncias do dia-a-dia que somadas sustentam mais a nossa saúde mental contra as investidas da amargura do que grandes ideais filosóficos.
         Desde miúda que ando à procura da beleza como um girassol à procura do sol. As cores do planeta avassalam-me no seu esplendor. Fico em estado de êxtase com a acutilância do azul, naqueles esplendorosos dias de Inverno frios e limpos já a adivinhar a Primavera. Os verdes da natureza, os cheiros luxuriantes dos jardins, todos os odores que me lembram entes queridos ou acontecimentos felizes e me comovem até às lágrimas como o cheiro inebriante dos jasmineiros, tomateiros em flor, sopa de feijão verde com segurelha, a canela do bolo da tia, o meu perfume preferido, a terra molhada da chuva de Verão, as rosas de Santa Teresinha, a erva-doce dos bolos do Oeste...
         Adoro observar os círculos concêntricos na superfície da água, o vaivém das águas de uma piscina ou tanque reflectido no branco de uma parede caiada, um lago cheio de peixes a nadar pachorrentos...
         Gosto da chuva. Imensa, miúda, uma feiticeira que torna verdes os montes; gosto das coisas que se costumam fazer quando chove. O mar, o incomparável mar, a recordação do mar quando era miúda em diversas versões. Mais suave, ainda com remansos de Tejo nas ondas, na praia de Paço-de-Arcos; selvagem e furibundo no Lizandro. A memória das noites na tenda dos avós paternos com o canto desse mar embravecido a embalar-me os sonos de criança. Ao longe era quase uma doce canção.
         Gosto de sair e estar em casa. De dançar ou de ficar quieta. De rir e de chorar. De viajar ou atracar por um tempo indefinido. De acção e de descanso. De contemplação e de pragmatismo. De amigos e de solidão. De luxo e frugalidade. Com as doses de tudo isto é que é pior, que ainda me baralho mas... a perfeição não existe!
         Quando penso que vou despedaçar-me em mil bocados, descubro que uma simples descarga de música electrónica me conserta o ritmo, me arranja nervos e tendões e me fortalece a vontade de seguir viagem.
         Devoro livros, filmes, espectáculos diversos mas não gosto de tudo. Sou selectiva mas muito ecléctica. O maior espectáculo a que já assisti é a Vida. Fico no meu canto do café, do supermercado, da rua a observar as gentes. Etnias, cores de pele, anatomia das faces, o modo como se mexem, quem serão. Atribuo-lhes casa, profissão, companheiro ou companheira, mudo-lhes o penteado, acrescento-lhes batom, perfume ou uma roupa mais bonita. Depois volto as atenções para outra qualquer pessoa e recomeço.
         Tudo isto é viciante...Adoro pintura (ou não tivesse a ver com cores!) e gostaria de pintar a maior parte das coisas que vejo, assim à laia de homenagem ao Arquitecto Grandioso mas não tenho esse dom. Invejo todos os grandes pintores...
         Grande parte do meu tempo não quis viver. A Vida, (pensava eu) era (é!) um raio de jogo cruel mas empanturrei-me de tudo quanto a Vida tinha de bom e de mau ao meu alcance e agora agarro-me com a força dos desesperados ao tempo que acho que me é devido. Ganhei o direito sucessório às memórias dos que já partiram. Estão vivos em mim, por mim e este é o meu tempo. O tempo de conciliar os vivos com os mortos. De retirar das experiências passadas o melhor que houver a aproveitar e ser a guardiã de tudo o que não deve ser esquecido. Entretanto, olho para a palma da minha mão com um pasmo bovino. Todas as linhas que contém. Porque será bifurcada a linha de cima? Parece a língua de uma serpente, a da mão esquerda...é mais interessante que a direita e uso-a muito menos...
         Estou pasmada com as mãos como os bebés. Parece que nunca as vi de facto... A criação perfeita! A “Quiromancia” mantém-me acordada ainda um bocado. A Vida surpreende-me sempre! Este meu espírito irrequieto, inconformado e meio atormentado é o principal culpado por me ter viciado na Vida. Qualquer pequeno átomo de coisa nenhuma me prende e me acalenta como uma estranha pilha de longa duração. A própria palma da minha mão me empurra para a batalha de estar viva.”
 
         A coragem da reconciliação com a Vida, o querer da mente de continuar a absorver o que existe é belo e comovente. A liberdade de viver o quotidiano, de continuar a amar tudo o que se viveu e tudo o que se movimenta e nos ensina a prosseguir, é belo, repito. Porque é belo? Porque na nossa Vida, se quisermos, todos os sentimentos podem coabitar. Assim poderemos lembrar, rir, chorar e ter esperança no amanhã.
 
Aida Nuno
 
 
 
:
publicado por criar e ousar às 15:35
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