Sexta-feira, 17 de Junho de 2011

Este é o meu tempo

Mãe,

        

         Li a tua carta várias vezes. De cada vez que a lia os meus sentimentos iam-se modificando...passaram da intolerância à raiva, por mexeres nas minhas feridas, até ao consolo de afinal ter a minha mãe.

         Sou uma jovem também marcada pela minha infância e isso não se esquece facilmente. Afinal não és tu só mãe que assististe e viveste aquilo que não querias. No entanto mesmo recordando e sentindo ainda o passado, que se prolonga até este presente, podes acreditar que nada do que se passou irá influenciar negativamente o meu futuro porque este é o meu tempo e não abdico daquilo a que tenho direito. Afinal tive um pai e uma mãe. Se a vossa vida em comum foi desajustada tinha forçosamente de captar todo esse clima de desunião. Não foi o vosso divórcio que me machucou, hoje já entrou na vulgaridade, foi o encobrimento do meu verdadeiro pai. Não quero nem devo ser juíza mas tu, na vontade de mudares de vida acabaste de suportar tudo aquilo que odiavas sempre na procura do nada. Depois, como tu própria o dizes, soube da minha paternidade em diversas versões que me chocaram. A tua ingenuidade cobriu-te de remorsos. O teu segredo esteve sempre exposto e nunca quiseste perdoar ao paizinho. Foi tudo muito complicado também para mim e francamente não quero entrar por nenhum caminho que me obrigue a fazer juízos de valor.

         O meu pai, aquele que sempre reconhecerei como tal, partiu mas continua no meu coração. Tinha defeitos e qualidades, bem o sei, mas era puro no seu idealismo e transmitiu-me, tal como tu, ensinamentos que guardarei para sempre. O outro, aquele que verdadeiramente te marcou como mulher, é para mim, como um D. Sebastião que se esfumou na guerra colonial, antes do 25 de Abril, esse Abril que hoje poucos lembram e até alguns jovens desconhecem. Ainda bem que tive um pai que viveu esse tempo e mo transmitiu, com as suas verdades e mentiras, mas que eu vou de ano para ano, tentando inquirir e ponderar a realidade do teu tempo. Chegarei algum dia a algum consenso?

         Sinto-me uma jovem bastante elucidada e pergunto-me, muitas vezes, se o seria se tivesse tido uns pais, como to hei-de dizer, mais vulgares ou seja mais equilibrados. O que eu hoje sei e disso me orgulho, foi que ambos à vossa maneira se debruçaram sobre mim e me incutiram os valores que estão acima da política e da ambição de muitos. Quero, agora mais do que nunca, ser imparcial e flexível. Porque não enterrar as partes menos boas do passado?     É verdade mãe, os jovens de hoje, são menos facciosos, mais abertos à verdade, justiça e clareza.

         Desculpa esta mudança de conteúdo mas tinha que desenvolver o meu raciocínio e dizer-te que foste tu, mais do que ninguém, a minha grande mestra.

         Nada tenho para perdoar. Se viveste um mundo conturbado e no teu íntimo sofreste desajustamentos que a vida te ofereceu, quem sou eu para continuar a infligir-te mais sofrimento? Afinal, como tu bem o dizes, foste acompanhando o meu crescimento e, como tu muitas vezes me provavas, Portugal era pequeno e o teu amor muito grande por mim.

         Estou aqui na varanda da nossa casa. O amor da avó pelas rosas nunca morreu assim como um grande amor por ti. Hoje os canteiros são vasos mas as rosas da avó têm a mesma beleza e perfume todos os anos quando rompe a Primavera. Como fiquei feliz ao saber que vais regressar definitivamente!

         Tenho saudades de assistir contigo a um pôr-do-sol daqueles tão vermelhos que se deixam olhar por morrerem tão mansamente. Já me estou a ver partilhando o meu dia a dia contigo e com a avó. Fiz-te sorrir? Vem mãe...com a tua presença constante e tão necessária...

 

Com amor, a tua filha

                                      Rita

        

:
publicado por criar e ousar às 16:29
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